quarta-feira, 18 de março de 2009

Uma nova imagem dos seres humanos


As descobertas das últimas décadas sugerem fortemente que a psique não é limitada à biografia pós-natal e ao consciente individual freudiano, e confirma a verdade perene, encontrada em muitas tradições místicas, de que os seres humanos podem ser comensurados com tudo o que existe. As experiências transpessoais e o seu extraordinário potencial certamente atestam esse fato.

A nova imagem dos seres humanos é paradoxal por natureza e envolve dois aspectos complementares. Nas situações diárias abrangendo estados comuns de consciência, poderia ser apropriado pensar nas pessoas como máquinas biológicas. Porém, em estados mentais incomuns também podem demonstrar propriedades de campos infinitos da consciência — transcendendo o tempo, o espaço e a causalidade linear. Essa é a imagem que as tradições místicas têm descrito por milênios. Recentemente, recebeu-se o apoio inesperado da tanatologia, da parapsicologia, da antropologia, das psicoterapias existenciais e da pesquisa psicodélica, e também do trabalho com emergências espirituais.

(...)

(...) Aqui nos referimos ao mundo de conhecimento holotrópico (literalmente "caminhar para a totalidade", do grego holos = "todo" e trepein).

Nesse modo de conhecimento podemos vivenciar um amplo espectro de fenômenos; alguns deles são o restabelecimento vivido de eventos passados; outros são seqüências de morte e renascimento, e ainda outros são vários aspectos da dimensão transpessoal. Eles nos dão fortes evidências experienciais de que o mundo da matéria não é sólido, de que todas as suas fronteiras são arbitrárias e de que nós mesmos não somos corpos materiais, mas campos ilimitados de conhecimento. Demonstram também a possibilidade de que o tempo e o espaço newtoniano podem ser transcendidos e sugerem a existência de realidades e seres que não são de natureza material.

Na psiquiatria tradicional, todas as experiências holotrópicas têm sido interpretadas como fenômenos patológicos, apesar de a causa dos processos de doença nunca ser identificada; isto reflete o fato de que o antigo paradigma não tem uma explicação adequada para essas experiências e não foi capaz de dar conta delas de qualquer outro modo. No entanto, o estudo cuidadoso nas experiências holotrópicas demonstra que elas não são produtos patológicos do cérebro; ao contrário, revelam capacidades extraordinárias da psique humana e aspectos importantes da realidade normalmente escondidos da nossa consciência.



Retirado do livro: A tempestuosa busca do Ser; de Stanislav e Christina Grof

O paradigma emergente na ciência ocidental


Os desenvolvimentos revolucionários em várias disciplinas delineiam agora uma visão de mundo que é radicalmente diferente da imagem newtoniana do universo. Algumas das mudanças mais radicais ocorreram na física, a base da ciência mecanicista. Com o advento da teoria da relatividade de Einstein e da física quântica, os conceitos tradicionais de matéria, tempo e espaço foram ultrapassados. O universo físico veio a ser visto como uma trama unificada de eventos paradoxais estatisticamente determinados, na qual o conhecimento e a inteligência criativa desempenham um papel muito importante.

O reconhecimento de que o universo não é um sistema mecânico (...), preparou o terreno para um entendimento da realidade baseado em princípios inteiramente novos. Essa abordagem ficou conhecida como holografia, porque algumas das suas características mais notáveis podem ser demonstradas com o uso de hologramas ópticos como instrumentos conceituais. Os dois cientistas que se tornaram conhecidos por suas contribuições a este novo modo excitante de ver a realidade são o físico David Bohm e o neurocientista Karl Pribram.

Um aspecto do pensamento holográfico particularmente relevante para a nossa discussão é a possibilidade de um relacionamento completamente novo entre as partes e o todo. No sistema holográfico, a informação é distribuída de tal modo que seu todo está contido e é acessível a todas as suas partes. Essa propriedade pode ser demonstrada cortando-se um holograma óptico em muitos pedaços e demonstrando que cada um de seus fragmentos é capaz de reproduzir a imagem toda.

O conceito de "informação distribuída" abre perspectivas inteiramente novas para a compreensão de como as experiências transpessoais podem mediar o acesso direto à informação sobre vários aspectos do universo que permanecem fora dos limites pessoais convencionalmente definidos. Se a pessoa e o cérebro não são entidades isoladas, mas partes integrantes de um universo com propriedades holográficas — se são, de algum modo, microcosmos de um sistema maior —, então é compreensível que possam ter acesso direto e imediato à informação exterior.

(...)

As descobertas modernas da psicologia e da psiquiatria não têm sido menos surpreendentes e radicais que aquelas das ciências naturais. (...) Eles mostram a psique como um princípio universal que informa toda a existência e é inseparável do mundo material da realidade consensual. As experiências transpessoais descobertas por pesquisas modernas da consciência têm propriedades que colocam em questão os verdadeiros fundamentos das crenças tradicionais sobre o relacionamento entre consciência e matéria.

Os novos resultados sugerem que a consciência não é um produto do cérebro humano; é mediada pelo cérebro mas não tem origem nele. Uma pesquisa moderna trouxe a seguir evidências surpreendentes demonstrando que a consciência deveria ser um parceiro igual à matéria, ou até mesmo superordenado para ela. Isto está emergindo cada vez mais como um atributo primário da vida que é inexplicavelmente alternativa na estrutura do universo, em todos os níveis.


Retirado do livro: A tempestuosa busca do Ser; de Stanislav e Christina Grof

Espiritualidade, religião e a experiência do divino


Para prevenir a má comunicação, gostaríamos de dizer o que entendemos pelo termo "espiritualidade" e em que sentido o usaremos. O termo espiritualidade deve ser reservado para situações que abrangem experiências pessoais de certas dimensões da realidade e que dão à vida de alguém e à existência em geral uma qualidade numinosa. C. G. Jung usou a palavra "numinosa" para descrever uma experiência que parece sagrada, pura e fora do comum. A espiritualidade é algo que caracteriza o relacionamento entre a pessoa e o universo e não requer, necessariamente, uma estrutura formal, um ritual coletivo ou a meditação feita por um sacerdote.

Em contraste, a religião é uma forma de atividade grupal organizada que pode ou não tender para a verdadeira espiritualidade, dependendo do grau em que ela proporciona um contexto para a descoberta pessoal das dimensões numinosas da realidade. Enquanto na origem de todas as grandes religiões estão as revelações visionárias de seus fundadores, profetas e santos, indicando o caminho, em muitos casos, com o passar do tempo, a religião perde a ligação com o seu núcleo vital.

O termo moderno usado para a experiência direta das realidades espirituais é a palavra "transpessoal", que significa transcender o modo usual de perceber e interpretar o mundo desde uma posição de ego individual ou ego corporal. Existe uma disciplina totalmente nova, a psicologia transpessoal, especializada em experiências desse tipo, e suas implicações e descobertas advindas dos estudos transpessoais de consciência são de fundamental importância para o conceito de emergência espiritual.

Os estados envolvendo encontros pessoais com as dimensões numinosas da existência podem ser divididos em duas grandes categorias. Na primeira, estão as experiências do "imanente divino", ou percepções da inteligência divina expressando-se no mundo da realidade diária. Todo tipo de criação — pessoas, animais, plantas e objetos inanimados — parecem estar impregnados pela mesma essência cósmica e pela mesma luz divina. Uma pessoa nesse estado compreende repentinamente que tudo no universo é manifestação e expressão da mesma energia cósmica criativa e que separação e fronteiras são ilusórias.

As experiências da segunda categoria não representam uma percepção diferente do que já é conhecido, mas revelam uma valiosa série de dimensões da realidade que estão comumente escondidas da consciência humana e não são acessíveis ao estado diário de consciência. Elas podem ser atribuídas às experiências do "transcendente". Um exemplo típico seria a visão de Deus como uma fonte radiante de luz, de beleza sobrenatural, ou a sensação de fusão pessoal e de identidade com Deus, percebida desse modo. As visões de vários seres arquetípicos, como divindades, demônios, heróis lendários e guias espirituais, também pertencem a essa categoria. Outras experiências não envolvem meramente entidades sobre-humanas individuais, mas reinos mitológicos inteiros, como céus, infernos, purgatórios e vários cenários e paisagens diferentes de tudo que já foi visto na Terra.

O que nos interessa aqui são as conseqüências práticas dos encontros pessoais com as realidades espirituais. Para as pessoas que já os tiveram, a existência de um Deus imanente e transcendente não é uma questão de crença infundada, mas é um fato baseado numa experiência direta — assim como nossas atitudes acerca da realidade material da nossa vida diária são baseadas, primeiramente, nas percepções sensoriais. Por outro lado, a crença é uma opinião sobre a natureza da realidade fundamentada em uma forma específica de educação, de instrução ou de leitura da literatura religiosa (isso necessita de validação experimental).

Esses estados transpessoais podem provocar uma verdadeira influência transformadora benéfica nos seus receptores e em suas vidas. Podem aliviar várias formas de desordens emocionais e psicossomáticas, assim como dificuldades com relacionamentos interpessoais. Podem também reduzir tendências agressivas, valorizar a própria imagem, aumentar a tolerância para com os outros e elevar sua qualidade de vida. Entre os efeitos secundários positivos está, com freqüência, uma profunda sensação de conexão com outras pessoas e com a natureza. Essas mudanças nas atitudes e no comportamento são conseqüências naturais das experiências transpessoais; a pessoa as aceita e as adota voluntariamente, sem a imposição de injunções externas, preceitos, ordens ou ameaças de punição.

A espiritualidade desse tipo, baseada na revelação pessoal direta, existe tipicamente nas ramificações místicas das grandes religiões e em suas ordens monásticas, que se utilizam de meditações, cantilenas repetitivas, preces e outras práticas para induzir esses estados transpessoais da mente. Já vimos, por diversas vezes, que as experiências espontâneas durante as emergências espirituais têm um potencial semelhante, se ocorrerem em um contexto de apoio e compreensão.


Retirado do livro: A tempestuosa busca do Ser; de Stanislav e Christina Grof

As voltas dessa minha vida


Meu corpo está no chão
Estático sem vida
Desbravando a mim mesmo
Em profunda internalização

A mente foi aprisionada
Dentro desse labirinto
Quando encontro a saída
Percebo ser outra encruzilhada

Quando a mente se perdeu
Nos corredores de sua invenção
Lá se foi minha tranquilidade
Afundei no desespero
Quando concebi que o labirinto
Percorre toda a eternidade

Visitei a insanidade
O paradoxo entortou a lógica
E concebi essa aparente incoerência
Como uma profunda verdade

Entendi que era a mente
E silenciei em contemplação
Elevei minha consciência
E no amor infinito
Percebi toda interconexão

Santo amor transcendental
Graça de adoração
A ti me entrego por completo
Confiante e sem medo
Em perfeita união

Graça a ti meu pai eterno
Tu que és a própria vida
Me prende, gira, tira o chão
Pra que eu aprenda e siga firme

Tu és todo meu amor
Que não cabe nas palavras
Só nessa gratidão linda
Que permeia e lava a alma


Lupa

quarta-feira, 11 de março de 2009

Desafios conceituais à ciência



Durante toda a história da ciência moderna, gerações de pesquisadores buscaram com grande entusiasmo e determinação os vários grandes caminhos de pesquisa oferecidos pelo paradigma newtoniano-cartesiano descartando prontamente conceitos e observações que teriam questionado algumas das premissas filosóficas básicas partilhadas pela comunidade científica. Muitos cientistas foram tão inteiramente programados por sua educação ou tão arrebatados e impressionados pelo seu uso pragmático, que aceitaram aquele modelo, de maneira literal, como uma descrição exaustiva e correta da realidade. Nessa atmosfera, incontáveis observações de vários campos foram sistematicamente descartadas, suprimidas ou mesmo ridicularizadas, com base em sua incompatibilidade com o pensamento reducionista e mecanicista que, para muitos, tornou-se sinônimo de um enfoque científico. (...)

As extraordinárias conquistas técnicas dessa ciência têm produzido um efeito negativo, apesar de seu potencial para resolver a maior parte dos problemas materiais que afligem a humanidade. Seu sucesso criou um mundo no qual seus maiores trunfos – energia nuclear, foguetes espaciais, laser, computadores e outros instrumentos eletrônicos, e os milagres da química e da bacteriologia modernas – transformaram-se em pesadelo e perigo vital. Como resultado vivemos em um mundo divido (...), perigosamente ameaçado por crises econômicas, poluição industrial (...). Por causa dessa situação mais e mais pessoas questionam a utilidade de um progresso tecnológico precipitado, que não é cuidado nem controlado por indivíduos emocionalmente maduros ou raças suficientemente evoluídas, capazes de manejar, de maneira construtiva, os poderosos instrumentos criados por esse mesmo progresso.

À medida que se deteriora a situação mundial sócio-política e ecológica, um crescente número de indivíduos parece desistir da manipulação unilateral e do controle do mundo material e voltar-se para dentro de si mesmo. Há um interesse cada vez maior na evolução da consciência como uma possível alternativa para a destruição global. Percebe-se isso na crescente popularidade da meditação ou de outras antigas práticas espirituais do oriente e na psicoterapia experiencial, tanto quanto nas pesquisas clínicas de laboratório sobre a consciência. Essas atividades apresentam um novo foco: os paradigmas tradicionais são incapazes de adaptar e responder por um grande número de observações seriamente desafiadoras vindas de áreas e fontes diferentes.

Na sua totalidade, esses dados são de importância crítica e indicam necessidade urgente de uma revisão drástica de nossos conceitos fundamentais da natureza humana e da natureza da realidade.


Retirado do livro: Além do cérebro; de Stanislav Grof

sábado, 4 de outubro de 2008

Modelos

Incontáveis grãos
Modelos de explicação
Criatividade que flui em mim
Grãos que brotam sem fim

Na peneira-entendimento
fechou o paradoxo
em mistério e contradição?
ou abriu em sentido e compreensão?

Tão belo foi o grão
Que passou da peneira
e abriu na minha mão
Me trouxe outro olhar
Permaneceu...
Até não mais se sustentar

Medo de perder o chão
Criando pra ter onde me agarrar
Acreditar...
Na confusão afundo
e me perco sem querer olhar
a simplicidade daquilo que é


Lupa

domingo, 14 de setembro de 2008

Shunyata - "O que é" é "o que é"

Shunyata — o nada, o vazio, a vacuidade, a ausência de dualidade e conceituação. O mais conhecido dos ensinamentos de Buda sobre o assunto é apresentado no Prajnaparamita-hridaya, também chamado Sutra do Coração; (...)

Disse Avalokiteshvara: "O, Shariputra, a forma é vazia, o vazio é forma; a forma não é mais do que o vazio, o vazio não é mais do que a forma." Não precisamos descer aos pormenores do diálogo deles, mas podemos examinar essa afirmação a respeito da forma e do vazio, que é o ponto principal do sutra. E por isso precisamos ser muito claros e muito precisos acerca do significado do termo "forma".

Forma é o que é antes de projetarmos nossos conceitos sobre ela. É o estado original do "que está aqui", as qualidades coloridas, vividas, impressionantes, dramáticas, estéticas, que existem em todas as situações. Forma pode ser uma folha caindo de urna árvore e pousando num rio que desce de uma montanha; pode ser a plena claridade do luar, uma sarjeta na rua ou um monte de lixo. Essas coisas são "o que é", e, num sentido, são todas idênticas: todas são formas, todas são objetos, todas são precisamente "o que é". As avaliações que lhes dizem respeito são formadas mais tarde em nossa mente. Se efetivamente olharmos para as coisas como elas são, veremos que são apenas formas.

Portanto, a forma é vazia. Mas vazia do quê? A forma é vazia de nossas idéias preconcebidas, vazia dos nossos julgamentos. Se não avaliarmos e categorizarmos a folha da árvore que cai e pousa na corrente de água como oposta ao monte de lixo, então, ambos estarão ali, serão “o que é”. Eles são vazios de preconceitos. São precisamente o que são, naturalmente! O lixo é lixo, a folha da árvore é a folha da árvore, "o que é" é "o que é". A forma será vazia se a virmos na ausência de nossas próprias interpretações dela.

Mas o vazio também é forma. Esta é uma observação muito chocante. Julgávamos haver conseguido classificar tudo, pensávamos haver conseguido ver que tudo é o "mesmo", se de tudo tirarmos os nossos preconceitos. Isso compunha um bonito quadro: tudo o que vemos, mau ou bom, tudo é bom. Ótimo. Muito suave. Mas, o ponto seguinte é que o vazio também é forma, por isso, temos de reexaminar o assunto. O vazio da folha de árvore também é forma; não é realmente vazio. O vazio do monte de lixo também é forma. Tentar ver essas coisas como vazias é também vesti-las de conceito. A forma volta. Era fácil demais tirar todo o conceito e concluir que tudo simplesmente é o que é. Isso poderia ser uma saída, outra maneira de confortar-nos. Temos realmente de sentir as coisas como elas são, as características do estado de monte de lixo e as características do estado de folha de árvore, o estado de ser das coisas. Temos de senti-las ajustadamente, e não apenas cobri-las com o véu do vazio. Isso nada ajuda. Temos de ver o estado de ser do que está ali, as qualidades cruas e rudes das coisas exatamente como são. Esta é uma maneira muito precisa de ver o mundo. Primeiro, portanto, extinguimos todos os nossos pesados preconceitos, e depois eliminamos até as sutilezas de palavras como "vazio", o que nos deixa em lugar nenhum, completamente com o que é.

Por fim, chegamos à conclusão de que forma é apenas forma e o vazio é apenas o vazio, o que foi descrito no sutra como a visão de que a forma não é mais do que o vazio, que o vazio não é mais do que a forma; são inseparáveis. Vemos que a busca da beleza ou do significado filosófico da vida é apenas um modo de justificar-nos, dizendo que as coisas não são tão más quanto as supomos. As coisas são tão más quanto as supomos! Forma é forma, o vazio é vazio, as coisas são exatamente o que são e não precisamos vê-las à luz de qualquer raciocínio mais profundo. Finalmente descemos à Terra, vemos as coisas tais e quais são. Isso não significa ter uma inspirada visão mística com arcanjos, querubins e músicas suaves. As coisas são vistas como elas são, em suas próprias características. Neste caso, portanto, shunyata é a ausência total de conceitos ou véus de qualquer espécie, a ausência até da conceituação de "forma é vazio" e de "o vazio é forma". É uma questão de ver o mundo de modo direto sem aspirar "maior" consciência ou significação ou profundidade. É perceber as coisas literalmente de maneira direta, como elas são por si mesmas. (...)

Como, então, começa a crença num "eu" e todo o processo neurótico? Em linhas gerais, conforme os Madhyamikas, toda vez que ocorre uma percepção de forma, verifica-se uma reação imediata de fascinação e incerteza da parte de um subentendido percebedor da forma. Essa reação é quase instantânea. Leva apenas uma fração de fração de segundo. E, assim que reconhecemos o que é a coisa, a nossa reação seguinte é dar-lhe um nome. Com o nome, naturalmente, vem o conceito. Tendemos a conceituar o objeto, o que quer dizer que, a essa altura, já não somos capazes de perceber as coisas como elas realmente são. Criamos uma espécie de acolchoamento, um filtro ou véu entre nós e o objeto. É isto que impede a manutenção da consciência contínua, durante e após a prática da meditação. Este véu nos afasta da consciência panorâmica e da presença do estado meditativo, porque, comumente, somos incapazes de ver as coisas como elas são. Sentimo-nos compelidos a nomear, a traduzir, a pensar discursivamente, e essa atividade nos afasta ainda mais da percepção direta e precisa. Assim, shunyata não é simplesmente consciência do que somos e de como somos em relação a tal e tal objeto, mas é antes a claridade, que transcende o acolchoamento conceptual e as confusões desnecessárias. Já não se está fascinado pelo objeto nem envolvido como sujeito. É liberdade disto e daquilo. O que persiste é espaço aberto, a ausência da dicotomia do isto-e-aquilo. Eis aí o significado do Caminho do Meio ou Madhyamika.

(retirado de: Além do Materialismo Espiritual; de Chogyam Trungpa)